
Autor: Anderson Moraes de Castro e Silva
E-mail: guaratibano@gmail.com
Boa leitura:
Um turbilhão de questões para debates e troca de idéias.

Artigo publicado na revista eletrônica Argumentos do IEP - Instituto de Estudios Peruanos. Ano 3, Número 2, Maio 2009.Al llegar a Lima, hace unos meses, para llevar a cabo una investigación sobre los imaginarios urbanos y la construcción de sentidos de pertenencia a la urbe, no tenía un interés específico en analizar el comercio popular de la ciudad, aunque ese interés no sería para nada injustificado, dado que mi tesis de maestría trata de esta temática.1 Tal vez precisamente por eso mis ojos estuviesen siempre atentos y abiertos, impresionados con la pujanza de esa modalidad de comercio en la capital peruana.
En estas breves notas, no trataremos de considerar el comercio popular en Lima desde una perspectiva económica ni normativa. No deambularemos por los debates acerca de la marginalidad, ilegalidad o informalidad del comercio popular; no lo consideraremos el reflejo de una modernización truncada, ni como la causa y/o expresión de los males urbanos –“la imagen de una ciudad en pleno deterioro”2 –, ni tampoco como un emprendedorismo revolucionario hacia una economía de mercado democrática.3 Trataremos más bien de desarrollar una mirada que parte de la consideración (histórica, sociológica y antropológica) de las relaciones intrínsecas entre el comercio y el fenómeno urbano, y de las modalidades de comercio popular en las cuales la negociación –en oposición al puro negocio– aún puede tener “lugar” (Filgueiras 2006). Negociación que, entendida en su sentido amplio, no se restringe al simple acto de comerciar, incluyendo, en su tesitura, la negociación entre modos de vida y usos del espacio urbano (y sus distintas temporalidades), muchas veces negociándose el propio derecho de existir en la ciudad.
Presentaremos aquí tres expresiones del vasto y diverso universo del comercio popular en Lima: los mercados, las ferias de artesanía –con énfasis particular en la “Feria de los Deseos”–, y los vendedores ambulantes en el transporte público. Desde una perspectiva que valoriza los hilos históricos entre el comercio y la ciudad, las consideraremos como expresiones –comerciales, culturales y sociales– de trayectorias que reflejan tanto las continuidades como los cambios que marcan la Lima contemporánea.
Artigo produzido a partir da tese de doutoramento “Política e jornalismo em tempo real: Webjornalismo e novos espaços de cobertura política”, defendida no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro em abril de 2007.
Para ler o artigo completo, clique sobre este link: Gatekeeper e controle editorial no interior das organizações jornalísticas. Após acessar o site clique em "free user", depois é só fazer o Download.
O advento do webjornalismo introduziu novas premissas e novos procedimentos de produção da notícia que modificam sua forma usual. Fatores relacionados com características técnicas da Internet influenciam as formas de trabalho das redações online. A capacidade ampliada de publicação e a possibilidade de atualização constante do webjornal significam rotinas mais aceleradas, que procuram dar conta dos fatos à medida que acontecem. Esses elementos impactam decisões editoriais, como a aceleração da velocidade dos procedimentos. Combinados com a linha editorial do veículo, o ‘fechamento’ permanente das edições online, o tipo de texto e as formas específicas de apuração nos jornais na Internet, o controle editorial precisa lidar com essas influências, interrelacionáveis, que acabam por conferir, também, mais flexibilidade ao corpo redatorial. Para compreender o estatuto do gatekeeper e as condições para o controle da linha editorial no webjornalismo é preciso reconhecer essas duas forças e sua pressão sobre a política editorial da empresa.


líderes comunitários falam sobre Associação de Moradores e tráfico de drogas em favelas do Rio de Janeiro.
Artigo apresentado no GT 01 - Cidades: sociabilidades, cultura, participação e gestão. Coodenadoras: Maria da Glória Marcondes Gohn (UNINOVE, UNICAMP), Maria do Livramento M. Clementino (UFRN). 30 Encontro Anual da ANPOCS 24 a 28 de Outubro de 2006.Autora: Lia de Mattos Rocha
E-mail: liarocha08@gmail.com
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Boa Leitura:
1. Introdução
O panorama das favelas nas últimas décadas tem mudado bastante, e diversas são as causas. Por um lado, a crise geral do Estado Brasileiro – que vem sendo reformulado em decorrência dos novos paradigmas liberais da economia mundial –, modificou a relação desse com as populações faveladas, alterando o sentido do que Machado da Silva (2002) chamou de “controle negociado”. Por outro lado, a sociabilidade nas favelas modificou-se com a entrada de diversos atores externos, como Organizações Não-Governamentais (ONGs), com o surgimento de novas organizações de origem local e, principalmente, com a presença do comércio de drogas nesses territórios, uma fonte poderosa de poder local e supralocal (Leeds e Leeds, 1978; Alvito, 2003).
Este artigo faz parte da minha tese de doutorado (em andamento), que abordará os efeitos dessas modificações para as associações de moradores de favela e para a ação coletiva nesses territórios[1]. Aqui, procuro discutir como as associações de moradores de favela têm reagido à essas modificações, pensando especificamente sua relação com o tráfico de drogas. Para tanto, utilizo como base empírica relatos de lideranças tradicionais de favelas obtidos em grupos focais, bem como entrevistas em profundidade realizadas com um presidente de associação em atuação, dados coletados como parte da pesquisa “Rompendo o cerceamento da palavra: a voz dos favelados em busca do reconhecimento”, financiada pela FAPERJ e coordenada pelo professor
2. Contexto das Favelas no Rio de Janeiro:
O panorama das favelas cariocas tem sido marcado desde seu início por dificuldades relativas ao lugar desses territórios na cidade. No começo da ‘história das favelas’, estas sempre foram identificadas pelos não-favelados como “território da pobreza”, local “infestado de vagabundos e criminosos”, etc., opondo sempre a favela, representando a desordem, à cidade, como local ordenado e legal (Valladares, 2005). Apesar dessas concepções terem se constituído no início do século passado, até hoje, em muitos casos, as favelas são descritas da mesma forma, utilizando-se o mesmo enquadramento para falar do local de moradia de parte considerável da população carioca e brasileira. Enfrentando o estigma, os moradores de favela conseguiram organizar-se de diversas maneiras para melhorar suas vidas, seja reivindicando bens e serviços públicos ao Estado através das associações de moradores, seja atuando diretamente nesses territórios, em grupos religiosos, mutirões, escolas de samba e grupos culturais, etc.
Nas últimas décadas, porém, o crescimento no número de eventos violentos[2], e a constatação por parte da sociedade deste fato, tem piorado o estigma histórico que recai sobre as favelas. Na percepção social dominante, a contigüidade territorial com criminosos violentos transforma todos os favelados em cúmplices, coniventes ou até mesmo potenciais criminosos. Este reforço do velho estigma prejudica em muito a vida dos moradores de favela, pois, entre outras conseqüências negativas, serve de justificativa para a violência policial sistematicamente praticada contra essa população e afeta negativamente a capacidade de se fazerem presentes e ouvidos no espaço público, através de suas lideranças. Machado da Silva e Leite (2004:63) chegam a afirmar que uma estratégia utilizada para desqualificar as lideranças de favelas que se colocam contra a política de segurança implementada pelos aparelhos estatais é “a criminalização de dirigentes”.
A presença de traficantes armados dentro das favelas modifica as relações entre os moradores desses territórios e deles com o resto da cidade. Para fora das favelas, como foi dito, o medo da ação dos traficantes faz com que os favelados sejam cada vez mais estigmatizados. Dentro das favelas, o tráfico estabelece uma nova dinâmica de sociabilidade, ao impor o terror sobre a população, tanto na relação direta quanto nos conflitos com bandos rivais ou com a polícia. Apesar das diferentes concepções vigentes entre os especialistas sobre o que explica esse fenômeno, a maioria destes afirma que o aumento no número de eventos violentos no Rio de Janeiro a partir dos anos 80 tem relação direta com o aumento da comercialização da cocaína, que parece ter alterado a escala e a qualidade do tráfico de drogas e ampliado as disputas pelo controle territorial das favelas como pontos de venda para o consumo final. Com a preocupação de garanti-los, os traficantes passaram a exercer forte controle sobre a rotina dos moradores, decretando toques de recolher, lei do silêncio, impedindo a circulação de moradores em áreas sob controle de quadrilhas rivais, determinando as gírias e as marcas de bens que podem ser usadas; ou seja, um conjunto de regras de comportamento que parecem ter apenas o objetivo de oprimir os moradores (mas que deixam implícito o caráter instável do extremo domínio exercido, pois o outro lado do terror é a desconfiança generalizada e o medo). O endurecimento do tráfico, em termos de maior controle de território e mais armamentos pesados, também foi seguido pelo endurecimento do conflito com a polícia, o que aumenta a insegurança e o medo de todos os moradores da cidade e especialmente dos mais intensa e diretamente atingidos, favelados.
Para compreender como as Associações de Moradores e suas lideranças entendem a situação atual das favelas e lidam com ela, é preciso compreender o que é o fenômeno da criminalidade urbana violenta. No entanto, existem diferentes abordagens sobre o que determina a ação desses grupos: trata-se de um crescimento quantitativo na violência urbana ou uma violência de qualidade diferente da anterior? Na próxima seção apresento alguns dos argumentos a esse respeito, e que irão direcionar a análise dos dados.
Todas as fotos foram expostas na exposição coletiva "Mostra Experimenta de Fotografia", em cartaz no Espaço Cultural do CREA-RJ, de 10 a 28 de fevereiro de 2003. E, posteriormente, na festa LOUD! (integrando o evento “Foto Rio”), no dia 28 de junho de 2003, no Rio de Janeiro.
As fotos p&b' foram expostas no concurso Universidarte XI, da Estácio de Sá (RJ), de maio a setembro de 2003; e na exposição coletiva "Risco – Mostra de Fotografia Experimental", com curadoria de Denise Cathilina, em cartaz no Ateliê da Imagem (RJ), de setembro a novembro de 2002.






Autor: Bernardo Borges Buarque de Hollanda.
E-mail:bernardobuarque@gmail.com
Para ler a resenha completa clique sobre este link: Raízes do Brasil
Boa Leitura:
Em conferência de 1965, por ocasião de um congresso sobre o cinema latino-americano em Gênova, Itália, Glauber Rocha lançava as bases de sua tese A estética da fome. Como expoente do movimento Cinema Novo, o cineasta defendia a singularidade do processo de afirmação nacional, com a transformação de sua maior mazela - a fome - em potência artística criativa do Terceiro Mundo, único fenômeno capaz de assombrar a Europa civilizada. Em seu manifesto, a busca de elementos próprios ao país, que lhe dariam a capacidade de expressar com originalidade esta força, poderia encontrar paralelo na literatura dos anos de 1930, em especial no romance social nordestino, com as obras de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e José Lins do Rego. O cinema da década de 1960 encontrava a fonte de inspiração na literatura regional da década de 1930. Da escrita à imagem, da pena à câmera na mão, cineastas se identificavam com escritores no sentido do engajamento do artista com o seu meio.
Nelson Pereira dos Santos foi um dos pioneiros desse processo cinematográfico de reivindicação de uma continuidade com escritores regionalistas e de transposição de suas obras para as telas, o que sucedeu com Vidas secas, Tenda dos milagres e Memórias do cárcere. Nos últimos anos, após a consolidação de uma extensa filmografia no campo ficcional, o diretor tem ampliado sua área de atuação, com a opção pelo gênero do documentário e com a realização de um novo diálogo intelectual com as letras brasileiras da década de 1930. No limiar do século XXI, Nelson Pereira dos Santos adapta para o cinema, em forma didática, a obra de clássicos das Ciências Sociais no Brasil, como Casa-Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre, e Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Hollanda.
Tal postura parece estar em consonância com o espírito de um egresso do Cinema Novo, que havia nascido como uma insurgência contra o modelo do filme de entretenimento norte-americano e de suas variantes sub-hollywoodianas na América Latina. A nova vanguarda artística filiava-se à tradição nacional a fim de dar um cunho pedagógico à arte cinematográfica. Isto fez com que Humberto Mauro, realizador de centenas de documentários no Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince), tenha sido aclamado como uma dos principais referências do movimento. O interesse pela figura de Gilberto Freyre já vinha desde Joaquim Pedro de Andrade, com seu primeiro curta-metragem no final da década de 1950, O mestre de Apipucos, e com seu projeto, não concluído, de registrar em forma de ficção Casa-Grande & Senzala. Glauber Rocha filmou no início da década de 1970 o longa-metragem História do Brasil, com o estrito fim informativo, após uma síntese de vários autores do pensamento social brasileiro.
Com isso, não parece haver na atualidade uma mudança de rumos no cinema de Nelson Pereira dos Santos. A aproximação do diretor à vida e à obra de intérpretes brasileiros da década de 1930 revela o desejo de um aprofundamento do conhecimento científico áudio-visual e de uma melhor compreensão do país na contemporaneidade. Divididos respectivamente em quatro e em dois capítulos, Casa-Grande & Senzala (2001) e Raízes do Brasil (2004), de Nelson Pereira dos Santos, procuram apresentar para o grande público a importância do esforço de entendimento da realidade brasileira levado a termo por alguns de seus mais instigantes pensadores.
O depoimento de Antônio Cândido ao documentário parece ser o gancho que propicia a passagem da discussão do filme ao livro: Sérgio Buarque de Hollanda falava na década de 1930 de um Brasil que se esvaía, de um país em vias de extinção. O novo Brasil, ainda indefinido no plano social, político e econômico, era formado pelos fluxos de imigrantes que desde o final do século XIX aportavam da Europa e da Ásia. Embora não desenvolvido pelo historiador, este dado era salientado por Antônio Cândido como um indício da sintonia de Raízes do Brasil com os grandes debates de sua época.
(Apontamentos biográficos de Jaime de Carvalho, pioneiro na criação de torcidas organizadas no Brasil, revelam como a música foi levada para os estádios de futebol). O realismo fantasioso de Alejo Carpentier nos leva a um passeio pela história de um país que nasce marcado por fortes contradições. Pode soar repetitivo apontar que nações são construídas a partir de contradições, afinal a tradição hegeliana e marxista que orienta boa parte das análises dos processos históricos, aponta justamente para o fato de que a história se faz exatamente a partir das contradições. Se por um lado isso pode parecer óbvio, de outro lado falar da história do Haiti, e a ficção de Carpentier é um espaço privilegiado para tal percepção, significa falar de um lugar onde a história é de fato o lugar da contradição.
Palco de uma luta curiosa, entre a afirmação de uma nação autônoma, destinada a seguir o seu caminho de independência face ao sistema colonial, num momento histórico de rupturas radicais: a crise do Antigo Regime, o surgimento da moderna noção de indivíduo e dos direitos naturais do homem, e a suprema contradição de se constituir como nação independente que nasce de uma rebelião de escravos. O Haiti é um insuportável contra-senso num mundo onde se fala em direitos do homem e liberdades individuais e, ao mesmo tempo, toda superestrutura material esteja sustentada no trabalho escravo e no sistema colonial. No momento em que surge como nação, o Haiti parece a negação de todos os pressupostos do mundo vigente.
Mais do que isso o Haiti nasce com a permanente contradição interna entre ser uma pátria livre, autônoma, constituída a partir do desejo de seguir o seu próprio caminho, construir uma civilização em novas bases ou render-se aos valores de seus ex-colonizadores, a tensão de construir uma nação negra com valores civilizatórios “brancos”. É a contradição absoluta entre ser uma França Negra, uma civilização francesa constituída de homens negros, ou uma África Americana, uma civilização de bases africanas nas América. Será sobre este permanente debate que atravessa o século XIX que vai se erigir a idéia de nação no Haiti.
Nas páginas ficcionais de “O reino deste mundo” de Alejo Carpentier, através do personagem Ti Noel, vemos as diversas tensões que constituem o Haiti como nação. Inicialmente o mundo do colonizador se opõe às reminiscências de uma África sonhada, mítica, de homens bravos, que são ao mesmo tempo reis, sacerdotes e guerreiros. O mundo francês é representado pelo fraco senhor Lenormand de Mezy oposto ao bravo feiticeiro Mackandal, cujos poderes mágicos serão invocados um dia por Buckman, anunciando as guerras de libertação. Depois, a volta de Ti Noel a um país onde a gala dos soldados do imperador Henri Christophe, um negro, parece falar da construção de um mundo branco sob a pele negra, marcado por horrores semelhantes àqueles vividos por Ti Noel na condição de escravo. Por fim, o mundo dos mulatos republicanos, com réguas e compassos tentando medir e ordenar o novo mundo segundo a Razão, mundo estranho ao qual Ti Noel, já velho e cansado demais, prefere recusar, transformar-se em animal e esquecer a pátria sonhada como terra da liberdade, como lugar de reviver a grande África perdida.
Se no realismo fantasioso de Carpentier sobra força a tais tensões, a análise histórica do processo de independência do Haiti não é menos rica
O trabalho que apresento aqui pretende exatamente discutir estas tensões constitutivas deste país singular das América, à luz da bibliografia do curso de Relações Interétnicas. Inicialmente proponho uma análise do conceito de nação e a relação entre etnicidade e construção nacional. Para tanto proponho uma discussão desta bibliografia com autores haitianos, especialmente Joseph Antenor Firmin e Jean Price-Mars, cuja preocupação fundamental se dirigia a uma busca do pleno reconhecimento da singularidade haitiana, uma nação surgida a partir de uma revolução nacional onde papel dos escravos foi essencial.
De um lado Firmin se coloca num debate essencial do século XIX, sendo um dos principais críticos das teorias raciais, contrapondo sua obra ao famoso trabalho do Conde de Gobineau, de outro lado, Price-Mars será o principal defensor da singularidade da cultura haitiana, exaltando os valores próprios desta, como um modelo a ser seguido pelas nações americanas e africanas. A principal contribuição de Price-Mars se situa no campo do reconhecimento, na percepção de que o Haiti não pode ser colocado como uma nação inferior às demais, recusando a idéia de que um país formado por ex-escravos esteja abaixo das demais nações, reconhecendo na herança africana certos traços diacríticos que afirmam de um lado a singularidade e de outro a inscrição desta mesma cultura em condições de igualdade com as demais no plano geral da humanidade.
O trabalho divide-se em três seções que discutem inicialmente os diversos aspectos relacionados ao conceito de nação, construção nacional e etnicidade. A segunda seção do trabalho discute a idéia da “França Negra”, o problema de constituir uma nação e as bases fundamentais deste processo. A terceira e última parte analisa as questões abordadas por Firmin e Price-Mars na busca de um caminho autônomo para o Haiti como nação.

Latin politics, global media


O objetivo da pesquisa coordenada pelo Ibase e Iuperj – com colaboração de pesquisadores(as) da Uerj, UFRJ, UFF e Uenf – foi romper a “lei do silêncio” nas comunidades quando o assunto é violência. Os pesquisadores ouviram, em 15 grupos focais, 150 moradores de 45 favelas cariocas. Também foram feitas entrevistas em profundidade com moradores (quinze no total) de três favelas, uma tida como “tranqüila” (sem tráfico nem grandes operações policiais), outra violenta e uma terceira onde há a presença de grupos de milícia (os nomes das comunidades não podem ser identificados por motivo de segurança).
Os resultados mostram críticas generalizadas à atuação policial nas comunidades – a principal é que as operações não distinguem “pessoas de bem” de “marginais”. Apesar disso, os pesquisadores(as) concluem que “os moradores querem polícia e segurança nas favelas”, mas consideram imprescindível “uma mudança profunda nas atividades policias de rotina e o fim das “operações”. Já a convivência com o tráfico é vista pelos moradores(as) como “forçada e não desejada”, permeada pela violência, arbitrariedade e brutalidade.
Sem meios de expressão, por conta do medo, os(as) pesquisadores(as) classificam a situação dos moradores como de “asfixia” quando o assunto é violência.
Metodologia: Foram realizados 15 Grupos Focais com 150 moradores de 45 favelas cariocas entre 2005 e 2007; além disso foram feitas entrevistas em profundidade com moradores (quinze no total) de três favelas, sendo que em uma comunidade tida como “tranqüila” (sem tráfico nem grandes operações policiais), outra violenta e uma terceira onde há a presença de grupos de milícia. Os nomes das favelas não podem ser divulgadas por questões de segurança e de metodologia.
Objetivos: Captar as percepções e relatos de moradores(as) de favelas sobre a violência e a insegurança em suas comunidades.
Presença do Estado
Não é verdade que traficantes (e/ou milícias) substituam o Estado nas favelas, embora seja verdade que a presença deste último nestas áreas não é igual à do restante da cidade. É verdade que há um fraco adensamento da presença pública nesses locais, porém diversos órgãos estão presentes, inúmeros projetos sociais têm a colaboração de órgãos públicos, políticos – eleitos ou não – têm presença constante, etc. Portanto, embora de fato os bandos de traficantes subjuguem os moradores, não é verdade que o tráfico é um substituto do Estado nas favelas.
Ainda que boa parte dos moradores possa ter crescido junto ou ser parente ou conhecido próximo de traficantes, não é verdade que eles sejam coniventes ou que protejam os bandos de criminosos. Eles lamentam e criticam a eventual participação de parentes e conhecidos nessas atividades, porém não têm condições de evitar a convivência, que é forçada e não desejada.
Favela e polícia
Os moradores fazem duras críticas à atuação da polícia nas favelas em função do caráter indiscriminado das “operações”, que não distinguem “pessoas de bem” de “marginais”. Note-se que essas críticas:
a) não se dirigem à corporação (ninguém é contra o controle policial);
b) não se dirigem aos métodos violentos em si mesmos (as críticas não são propriamente à violência policial em si, mas sim à falta de seletividade de seu alvo).
São recorrentes e intensas as reclamações quanto às diferenças de tratamento no “asfalto” e na “favela”, o que é atribuído aos estereótipos e preconceitos contra os favelados. Basicamente, os moradores criticam a atuação da polícia por não respeitar as diferenças e hierarquias da ordem social local, com faz “no asfalto”.
Outra parte das críticas denuncia a inação policial nos postos situados nas localidades e a corrupção dos agentes (e, de modo geral, a corrupção presente em todas as instituições públicas).
Há favelas onde a presença ostensiva da polícia (“ocupações”, proximidade com batalhões, viaturas fixas nas entradas, etc.) reduz drasticamente a visibilidade da atuação dos traficantes. Isto, porém, não elimina o sentimento de insegurança, porque:
a) os moradores continuam sem confiar na polícia e nas instituições estatais;
b)os moradores sabem que sua “tranquilidade” é passageira e instável, acabando assim que a ocupação da localidade for descontinuada, pois ela depende da política de segurança do momento;
c) sendo pontual, a presença ostensiva da polícia não elimina a atuação dos bandos de criminosos em outros espaços da cidade.
* Os moradores querem polícia e segurança nas favelas. Para isto, consideram imprescindível uma mudança profunda nas atividades policiais de rotina nestes territórios e o fim das “operações”, de modo a homogeneizar o controle social por toda a cidade, sem discriminar os territórios pobres.
Favelas e crime violento (o Tráfico)
Nas últimas décadas, a parcela mais estável e poderosa dos traficantes de varejo, que tem sua base quase sempre nas favelas e outros territórios pobres, vem constituindo uma forma de vida autônoma, diferente da dos moradores comuns, e sendo responsável por uma ordem social que submete os moradores. Chamamos isto de “sociabilidade violenta”. Na “sociabilidade violenta” as ações são coordenadas quase exclusivamente com base na força física (e suas extensões: armas, etc.).
a) Os moradores tentam o quanto podem manter suas rotinas normais relacionadas à ordem social dominante (da sociedade “como um todo”). Mas, para isto, sua atenção fica altamente concentrada na proximidade forçada com a “sociabilidade violenta”. Assim, quase todos os assuntos tratados pelos moradores sofrem a interferência da “sociabilidade violenta”, sejam os que envolvem a submissão direta imposta pelos traficantes ou as atividades da polícia (repressão legal ou não, corrupção, omissão, etc.), sejam os assuntos da vida cotidiana que aparentemente não dizem respeito a estas esferas de atividade.
b) O receio de infringir de alguma forma o domínio dos traficantes provoca alta dose de medo e desconfiança entre os próprios moradores.
c) Há relatos de casos em que criminosos “crias da localidade”, ao contrário dos “forasteiros”, manifestam algum “respeito” pelos moradores, seguindo referências de conduta que, no passado, teriam regulado uma vida local pacífica. Mas, na grande maioria dos relatos, a conduta dos traficantes – “crias” ou não – é apresentada como arbitrária e brutal, dependendo dos humores e disputas dos criminosos. Ou seja, embora os moradores busquem antecipar o que seriam as “regras” que devem seguir para evitar a violência, o que efetivamente vigora é o arbítrio dos traficantes que dominam naquele momento.
d) Saber localizar fronteiras (materiais e/ou simbólicas) entre favelas, distinguir sinais de facções rivais, bem como a troca de “comandos” são, entre outros, elementos cruciais para a orientação das rotinas e para a circulação dos moradores.
e) Fatores como tipo de atividade e sexo interferem na maneira de cada morador lidar com as ameaças (reais ou imaginárias) do tráfico, mas a faixa etária é o elemento mais importante para a orientação do comportamento. As rotinas que caracterizam o estilo de vida dos jovens sofrem interferências mais significativas dessas simbologias, o que os obriga a estar mais atentos (e submissos) a elas do que o restante dos moradores. Compreensivelmente, os jovens sentem um medo difuso e se auto-impõem restrições pela expectativa de punição potencial. (Há, também, muito medo da polícia, porém a arbitrariedade desta é percebida como incontornável: não haveria possibilidade de defesa contra ela exceto a corrupção, que não é acessível aos moradores comuns.)
f) A força moral que emana do status de alguns moradores – mães e evangélicos, em especial – impõe “respeito” aos traficantes permitindo-lhes obter, assim, uma certa “imunidade” em relação à arbitrariedade violenta das ações destes. Estas “vantagens” podem ser usadas para tentar livrar ou reduzir a punição de familiares ou amigos, com sucesso variável.
g) Na tentativa de enfrentar os estigmas derivados das imagens de “conivência”, os moradores de favelas desenvolvem um permanente esforço para provar ao restante da população da cidade que são pessoas “de bem”, honestas, confiáveis, pacíficas e sem participação ativa na “sociabilidade violenta”. Chamamos este esforço de “limpeza moral”. Quanto mais impessoais as interações, mais difícil e de resultado mais incerto ela é.
h) Dentro das favelas, os moradores também procuram deixar claro seu distanciamento moral em relação aos traficantes. Não fumar, não cheirar, não se envolver em seus negócios e redes, não aceitar seus favores são formas de tornar clara para os vizinhos a condição de “pessoa de bem” e a adesão à ordem institucional.
i) O medo e a desconfiança têm enfraquecido os laços sociais e a comunicação baseada em relações de vizinhança, dificultando a construção das bases para uma ação coletiva orgânica e bem focada.
Favelas e “milícias”
· A “milícias” são grupos paramilitares compostos em geral por policiais da ativa ou ex-policiais, bombeiros, etc., nem sempre moradores de favelas e muito bem armados.
· As milícias têm entrando em confronto com os bandos de traficantes pelo controle das favelas. A pretexto de impedir a presença destes últimos, as milícias constituem-se como verdadeiras organizações econômicas: além de cobrar proteção como algumas das antigas “polícias mineiras”, monopolizam algumas atividades locais (transporte alternativo, comércio de bujão de gás, distribuição de sinal roubado de televisão a cabo, etc.).
· Os bandos de traficantes exercem uma submissão arbitrária e cotidiana sobre os moradores de favelas. Quando esta presença desaparece ou é minimizada pela intervenção das milícias, os moradores vivem uma sensação de segurança pessoal que disfarça as coerções que sofrem. Esta “melhora”, que explica o apoio parcial de que desfrutam as milícias, é especialmente visível na diminuição dos conflitos entre os bandos pelo controle do território e entre esses grupos e a polícia – ocasiões em que o risco de ser atingido e morto é concreto para os moradores de favela.
· Os moradores dessas localidades passam a vê-las como diferentes, diferenciando-as dos territórios subjugados pelos traficantes e acreditando não mais sofrer o estigma de conivência com eles.
Moradores(as) de favelas no espaço público
· A “sociabilidade violenta” obstrui a possibilidade de expressão das dificuldades, demandas e reivindicações dos moradores de territórios favelados. Chamamos a isto de “asfixia”.
· Críticas à atuação dos bandos de traficantes e menções à demanda por segurança só se fazem em segredo e sob estritas relações de confiança. Mas os líderes de associações de moradores, por sua função pública de representação, são interpelados contraditoriamente,
a) pelos traficantes a respeito de diversos assuntos ligados a suas atribuições;
b) por diferentes atores e instituições, a respeito da violência nas favelas.
· Silêncio, evitação e diferentes formas de omissão em relação ao tráfico e aos traficantes não podem ser vistos como passividade ou desinteresse; constituem, antes, dispositivos de defesa diante das ameaças à segurança pessoal. Entretanto, isso gera acusações às lideranças de “ambigüidade” e/ou conivência, impedindo-as de exprimirem tanto os riscos que correm quanto os problemas de suas localidades e reduzindo sua legitimidade diante dos moradores.
· Dessa forma, a ação coletiva depara-se com a dificuldade de formular reivindicações sobre assuntos relacionados à segurança nesses territórios e mobilizar o apoio dos moradores, dificultando sua inserção nas agendas de debates do espaço público.
Observações gerais
· O sentimento generalizado de insegurança e a atribuição aos moradores de favelas de cumplicidade com os criminosos provoca:
a) uma delegação implícita aos policiais para atuar nesses territórios indo além do uso da “força comedida” que é sua função institucional;
b) uma reorientação das políticas sociais e das ações filantrópicas que passam a focalizar quase exclusivamente territórios e categorias tidos como “vulneráveis”, isto é, “em risco” de aderir ao crime violento. Especialmente, os moradores mais jovens são pensados e tratados como potencialmente criminosos.
Qualquer política de segurança bem sucedida precisa fundamentar-se em uma visão mais ampla da vida social, e deverá resultar de um debate em que
a) Os moradores do territórios pobres participem livre, organizada e ativamente;
Seja possível a formação de alianças que impeçam o isolamento social e político dos moradores de territórios pobres, como acontece hoje.


Artigo publicado na revista Dados. Vol.50 no.1 Rio de Janeiro 2007. Do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro -IUPERJ.
A identificação do espaço com a permanência é traçada a partir da delimitação da relação de desajuste entre o ritmo temporal da modernidade européia - marcada pela dinâmica do capital - e a persistência, nas sociedades periféricas, de formas de vida e de poder espacializadas. Isto é, a dimensão fundamental associada ao projeto central dos modernos seria o tempo, traduzido na sociologia clássica por uma constelação de conceitos hoje consagrados: revolução, carisma, mudança etc. Esse desajuste encontrou inúmeras formulações na imaginação brasileira, assombrada pelo desafio de ajustar um vasto continente de lugares e personagens ao relógio do Ocidente e aos códigos do liberalismo. Uma versão radical dessa malaise que acometia parte de nossa inteligência está nos escritos de Paulo Prado, refinado aristocrata paulista. Em Retrato do Brasil, Prado (1981) elenca inúmeros relatos de viajantes para compor um painel desencantado diante da inexistência de um código moral harmônico que organizasse nossa aventura civilizatória. Interpretações recentes (Lima, 1999) destacam o dualismo que marcaria a imaginação brasileira, cindida entre a celebração da autenticidade de nossos sertões e a percepção da ausência de integração social desses mesmos espaços. De um modo geral, a alteridade é percebida sempre como um atributo problemático dos nossos espaços, pensados como lugares estranhos aos ritmos e tempos da modernidade.
Este artigo pretende rediscutir essa questão a partir de um lugar intelectual no qual o espaço pode conhecer outras versões, implicando variantes modernizadoras que se valem da mobilização de imagens espaciais que não são identificadas com a permanência e com a resistência, mas com a inovação. Esse lugar é a periferia, entendida aqui como a geografia de formações sociais estranhas aos códigos hegemônicos da modernidade central1. Para tanto, optei por reabrir o chamado pensamento social brasileiro, fonte rica de indagações e sugestões a respeito das características singulares do processo civilizador nacional. É nessa forma de imaginação teórica que acredito ser possível recolher as pistas para a delimitação de uma visão da relação entre espaço e modernização que aponte para um ajuste entre esses termos. Assim, tomo por objeto o problema da terra nos escritos de dois personagens dessa forma de reflexão - Euclides da Cunha (1866-1909) e Vicente Licínio Cardoso (1889-1931). A escolha do escritor de Os Sertões justifica-se pela sua centralidade no imaginário republicano e pela consistente recepção de suas imagens espaciais, atestada pelo trabalho de Regina Abreu (1998). Já os textos de Vicente Licínio constituem uma evidência da rotinização dessas imagens e da circulação das mesmas entre diversos agentes intelectuais nos anos 1920. A opção pela análise mais detida de dois autores refere-se ao pouco rendimento analítico, no espaço de um artigo, de uma apresentação extensa de intelectuais cuja produção fosse orientada para temas semelhantes. Não se trata de verificar a persistência dessas categorias na imaginação brasileira - trabalho, aliás, já feito por Lima (1999) e Souza (1997) -, mas de interpretar, mais detidamente, os escritos de personagens que, além de significativos, partilham uma inscrição sociológica similar, o que permite uma fixação mais precisa de suas produções simbólicas. Afinal, trata-se de dois engenheiros2, formados em uma cultura técnica difusa e marcados pelo positivismo como uma espécie de código moral de uma nova intelligentsia, mas vislumbrando na terra, e não na cidade ou nos temas urbanos, uma imagem associada às potencialidades do processo civilizatório brasileiro.
Sugiro, como hipótese, que essa imagem, longe de se restringir a uma alegoria essencialista da nossa origem étnico-cultural ou de apelar para um programa ruralista, traduz uma interpretação do Brasil que destaca o pragmatismo e a modernidade inconclusa de nossa formação social. Ou seja, em vez de reiterar a dicotomia entre Ocidente e formas espaciais nativas, apresentada no parágrafo anterior, as reflexões desses dois intérpretes auxiliam na confecção de uma sociologia política da periferia que redesenha a geografia do moderno e situa o Brasil em um eixo civilizatório marcado não pelo atraso, mas pela novidade. Esse eixo, além do Brasil, incorpora a Rússia e os Estados Unidos, sociedades percebidas por Euclides e Licínio como portadoras de certas características que as credenciariam de forma positiva diante do Velho Mundo3. Explorarei essa matriz comparativa ao longo do artigo, pois creio que o esclarecimento da hipótese que me guia implica a decifração dessa cartografia intelectual que animava alguns membros da inteligência republicana. Antes de seguir com o argumento, um esclarecimento deve ser feito.
Como lido com a interpretação de imagens mais comumente associadas ao repertório conceitual da geografia, é comum a tentativa de circunscrever a análise aos parâmetros explicativos dessa disciplina. No caso desta investigação, interessa-me o potencial simbólico dessas imagens, e não apenas a descrição dos referentes físicos associados a elas. Isto é, assim como a cartografia elaborada por Montesquieu no seu O Espírito das Leis não se prende a espaços realmente existentes, constituindo-se em formas expressivas que podem ser transportadas para diversas localidades do planeta (como o deserto, categoria que traduz isolamento e ausência de vertebração social), as imagens espaciais aqui trabalhadas são tomadas como formas de pensar que extrapolam seus lugares. Essa é a chave analítica que me guia neste estudo. Assim, o desvendamento da categoria terra não está a serviço de uma discussão sobre o mundo rural brasileiro, pois acredito que essa imagem escapa ao seu referente específico, constituindo-se em símbolo que nos permite pensar o processo global de modernização brasileira. Isto é, a terra associa-se não apenas ao agrário, operando também como símbolo de uma narrativa metafísica sobre o Brasil e suas qualidades civilizatórias.
O artigo está estruturado em três seções. Na primeira, retomo os argumentos mais conhecidos sobre o tema do espaço na imaginação brasileira. Mostro como a associação entre espacialidade e permanência é recorrente, mas aponto a existência de uma perspectiva variante, organizada em torno de reflexões mais recentes sobre o barroco brasileiro. Nessa última, o tema da invenção destaca-se. Em seguida, mobilizo os casos históricos da Rússia e dos Estados Unidos, sociedades em que o tema espacial teve forte relação com o processo de modernização. O objetivo dessa segunda seção é delimitar um quadro comparativo que permita o desvendamento da incipiente sociologia política delineada por Euclides da Cunha e Vicente Licínio Cardoso e apresentada na última parte do texto. Ao final, retomo o argumento inicial e exploro o seu possível rendimento como uma ferramenta de interpretação do Brasil.

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Os deuses vendem quando dão
Compra-se a glória com a desgraça
Ai dos felizes porque são
Só o que passa
Mensagem, Fernando Pessoa
Através da indicação de uma prima, Rui resolve procurar Edson, um jovem pai-de-santo2 que atende às pessoas por meio do jogo de búzios. No dia da consulta, e le leva em sua companhia uma amiga, Helena, já "que não tem segredos entre ele e a amiga", mas sobretudo "porque ela tem mais experiência nessas coisas de consulta". O preço já havia sido informado pela prima. A consulta transcorreu normalmente. Rui fazia algumas perguntas, Edson apontava com grande detalhe alguns fatos, mas cometendo certas imprecisões relativas a assuntos irrelevantes, como pessoas ou locais que tentara adivinhar sem sucesso.
Ao fim da consulta, Rui dirige-se a Edson para pagar. Este lhe diz que deve colocar o dinheiro sobre o jogo. No entanto, como Rui tinha uma nota de R$ 50, e o preço da consulta era de R$ 40, Edson abre uma pequena gaveta, na parte inferior da mesa onde joga os búzios, e retira uma nota de R$ 10, sem tocar na nota de R$ 50 paga por Rui. Na saída, Rui e Helena travam ainda o seguinte diálogo:
– O que achou do jogo?
– Para o que foi, foi caro... – responde.
– Tá, mas ele acertou algumas coisas, principalmente o que a gente veio saber – retorquiu Rui.
– Sim, mas a consulta foi muito curtinha. Ele falou muito pouco.
– Então você não gostou, não foi o que você esperava.
– Não é isso, o rapaz é até sério, mas ficou tentando se exibir para nós e acabou se perdendo.
– É verdade.
Para começo de conversa, sobre as dádivas vendidas pelos deuses
Nos parágrafos iniciais do Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca em sociedades arcaicas, Marcel Mauss destaca que as trocas e os contratos se fazem na forma de presentes, em teoria, voluntários, mas na verdade obrigatoriamente dados e retribuídos. Mais adiante, o autor reforça estas idéias ao ressaltar que sob o caráter voluntário e aparentemente livre e gratuito, ao mesmo tempo obrigatório e interessado das prestações que se apresentam sob a forma do presente, do agrado oferecido generosamente, há o formalismo, a mentira e a ficção social, sob os quais se encontram subjacentes a obrigação e o interesse (Mauss 2003:188).
Uma das idéias-força que permeiam este artigo é o reconhecimento de que, na vida social, interesse e desinteresse, dons e mercadorias circulam indistintamente pelas mesmas relações. Logo, o que os deuses vendem aos homens e o que os homens trocam entre si não pertencem a universos separados e distintos. Os objetos, as gentilezas, os presentes que transitam por tais relações, pelo contrário, são sempre híbridos, caminham por domínios que se intercomunicam permanentemente e que formam uma unidade.
Quando alguém demanda um jogo de búzios3, faz um ebó4, um despacho5 ou uma oferenda6 aos orixás, não está entrando em uma dimensão isolada ou purificada da vida real. Pelo contrário, essas relações ocorrem em espaços nos quais as coisas se encontram imbricadas de tal maneira que é possível perguntar se é justo o preço pago por um serviço religioso ou um oráculo. Ao mesmo tempo, torna-se uma situação embaraçosa para uma jovem perguntar ao seu amigo, pai-de-santo, quanto ele cobra por um jogo. Ou ainda, quando alguém paga por um jogo de búzios, o dinheiro não ser entregue nas mãos do adivinho, mas colocado sobre a mesa de jogo.
Essas situações revelam que no universo do candomblé a presença do dinheiro é um elemento constitutivo das relações. No entanto, ao lado dessa naturalização há também a tensão e o constrangimento decorrentes da idéia de poluição do espaço sagrado da religião pelo domínio interessado do dinheiro. Há de fato uma ambigüidade derivada da idéia de que diversas dimensões existenciais são radicalmente separadas, baseada na crença na existência de esferas de valor relativamente autônomas, como o trabalho, a família, a religião ou a economia.
As cenas sociais que servem de base para o argumento que será apresentado neste texto não apenas colocam em questão a separação entre religião e dinheiro, mas acima de tudo pressupõem que há, para os atores envolvidos em cada situação, relações diferenciadas com o dinheiro. Se, por um lado, parece tão natural para esses agentes manusearem dinheiro no âmbito da fé, por outro lado, a presença do dinheiro dá a impressão de colocar as pessoas diante de situações que nem sempre se apresentam como naturais ou confortáveis.
É corrente entre os cientistas sociais a idéia de que o dinheiro é um instrumento de pura racionalização e instrumentalização. Nesta concepção, o dinheiro possuiria um sentido único, como meio de troca ou medida de valor, tornando impessoal e calculista qualquer situação social em que ele esteja envolvido. Há nesta perspectiva uma idéia subjacente sobre o lugar dos objetos, na qual o dinheiro associa-se ao interesse, à adequação entre meios e fins e à pura racionalidade baseada no cálculo.
Para Karl Marx (1983), por exemplo, o dinheiro é uma expressão pura e acabada do fetichismo da mercadoria, pois se a conversão do trabalho humano em mercadoria aliena o trabalhador do produto de seu trabalho, o dinheiro é uma forma perfeita de distanciamento entre os produtores e os seus produtos, transferindo para um terceiro objeto a medida do valor do trabalho. Marx entende que as relações de troca envolvem intercâmbio entre os agentes que permutam os trabalhos contidos nas coisas trocadas. Tal operação de conversão do trabalho em moeda acaba por conduzir as relações a um plano de abstração que se situa para além da concretude das ações dos indivíduos.
Georg Simmel (1977) também assevera que o dinheiro é um elemento de dissolução dos laços sociais, elemento que funda uma sociedade baseada essencialmente na pura racionalidade, rompendo padrões de relação tradicionais e impondo uma dimensão abstrata às relações baseadas em um elemento exógeno a elas. Por outro lado, Simmel procura transcender a dimensão exclusivamente econômica ou política tão evidente em Marx. Sua preocupação volta-se para os efeitos do dinheiro sobre a sociabilidade humana, sobre as formas assumidas pelas relações diante da sua presença.
Simmel também observa que através do dinheiro podemos estabelecer um mecanismo de quantificação, transferindo para um terceiro objeto a medida do valor das coisas. Considera este autor que tal valor é decurso da soma de uma série de qualidades das coisas, soma esta que representa um princípio cuja medida determina a reafirmação ou a degradação de seu valor. Portanto, o dinheiro é um objeto concreto para o qual transferimos uma medida abstrata sobre o valor das coisas. Entenda-se aqui que há uma referência explícita ao fato de o dinheiro ser um referente para a medida do valor das coisas, em um sentido mais restrito, dos objetos, das mercadorias, do trabalho, supostamente coisas mensuráveis ou pertencentes a um domínio marcado por relações interessadas.
Há nesta perspectiva uma idéia subjacente sobre o lugar das coisas, na qual o lugar do dinheiro está associado ao mundo do interesse, da adequação entre os meios e os fins e da racionalidade pura baseada no cálculo. Por ser o dinheiro um elemento que se coloca acima das relações, um terceiro termo para o qual são transferidos os valores ou as quantidades através de uma operação abstrata, este tipo de percepção sobre a monetização propõe um sentido único e obrigatório para as relações que envolvem dinheiro.
A perspectiva que sugiro, no entanto, difere desta visão corrente sobre o dinheiro. O meu propósito é pensar no seu caráter sociologicamente produtivo, na capacidade dos agentes de multiplicarem os seus sentidos, produzindo moedas, criando novos valores, utilizando-o como meio de troca e, às vezes, até como objeto de uso sagrado. Ao perceber que o dinheiro não é um elemento voltado exclusivamente para a quantificação, ou ainda, que a própria quantificação pode possuir sentidos diferenciados para os atores, é possível vislumbrar que o dinheiro não é apenas algo que "esfria e objetifica as relações", "quebra laços de sociabilidade" ou "produz distância entre as pessoas". Mais do que isso, na minha perspectiva, ele aparece como uma janela por onde é possível observar as relações entre as pessoas. Uma janela através da qual será provável, em termos mais gerais, divisar o universo relacional do candomblé. Assim, o dinheiro permite pensar relações que não estão circunscritas apenas ao universo econômico, mas estabelecer, como nos ensina Viviana Zelizer (2002), uma compreensão mais profunda do modo com que os homens se relacionam, criam laços de solidariedade, intimidade e conflito.7
A pesquisa que ensejou o presente artigo é fruto de uma longa convivência com o universo das religiões afro-brasileiras, primeiro, por adesão religiosa e, em um segundo momento, em função de interesses de estudo, que possibilitaram no decorrer dos últimos dez anos um intenso contato com diversos terreiros.8
Os dados etnográficos que são apresentados a seguir foram organizados a partir do conceito de cenas sociais, proposto por Florence Weber (2001), uma "ferramenta conceitual" que sugere um sistema de interações cujos significados são partilhados entre os agentes envolvidos nessas relações. As cenas sociais oferecem quadros privilegiados para a observação de certos tipos de relações, revelando redes momentâneas de interatuação não cristalizadas, de tipo e de duração variáveis.
As cenas sociais em que repousa o olhar deste trabalho ocorrem no âmbito dos terreiros de candomblé, onde investigo as relações entre os adeptos – iniciados ou não – os chefes de terreiro, as suas redes de clientela e certas seqüências rituais nas quais o dinheiro é utilizado, na expectativa de perceber os sentidos do dinheiro ou, ainda e de um modo muito amplo, os sentidos das relações em que o dinheiro se faz presente e pode ser um elemento constitutivo de laços de solidariedade, afetividade e intimidade ou, ao contrário, de acusação e ruptura. Uma das características essenciais das interações aqui analisadas reside no fato de estarmos diante de quadros em que há um alto grau de intimidade e confiança , coerente com as noções de "família de santo" e de "clientela religiosa".
As relações que se estabelecem no seio de uma família de santo9 podem ser vistas como muito semelhantes, em uma série de aspectos, àquelas que ocorrem nas diversas configurações familiares. Tal como propõem Édison Carneiro (1967 [1948]) e Vivaldo Costa Lima (2003), os compromissos dos filhos-de-santo em relação à sua família de santo são, no limite, os mesmos encontrados em muitas famílias extensas, nas quais os filhos devem auxiliar na subsistência e na reprodução da família.
Os laços estabelecidos entre o filho-de-santo e a casa de candomblé não estão referidos apenas à filiação religiosa, mas sobretudo ao campo das obrigações recíprocas, ao terreno profundo das emoções e dos sentimentos. A adesão a um terreiro de candomblé sugere a entrada em um círculo de intimidade e o cumprimento de uma rigorosa agenda relacionada à família de santo e ao seu dirigente.
A noção de família de santo está articulada a uma outra, a de clientela religiosa. Esta é uma categoria utilizada pelos adeptos do candomblé para definirem o tipo de relação baseada na demanda por serviços religiosos, sem que se estabeleça um vínculo formal de adesão ao terreiro. Trata-se de uma ligação baseada essencialmente na eficácia mágica do trabalho do pai-de-santo. Essa relação de compra e venda de serviços religiosos abre uma janela privilegiada para uma percepção mais ampla sobre a presença e os sentidos do dinheiro nas relações de troca em um terreiro.
O vínculo da clientela está sempre associado a uma eficácia mágica do trabalho do chefe da comunidade de culto, e uma parte substantiva da capacidade de reprodução de um terreiro decorre desta condição: a manutenção da clientela ou sua ampliação são fontes da credibilidade e do poder de um terreiro. Tal percepção, entretanto, abre espaço para as acusações de comércio com artigos de fé, ou de poluição do espaço sagrado da religião, um tema controverso recorrente em diversas tradições religiosas.
É curioso notar, no entanto, que a condição de mágico, no caso específico do candomblé, não está formalmente separada da condição de sacerdote; elas são permanentemente confundidas em uma relação de retroalimentação. A eficácia mágica produz a clientela e o prestígio de uma casa e, sobretudo, é do conjunto de clientes que se forma parte dos adeptos de um terreiro. Um grande pai-de-santo é também um grande manipulador da magia, pois de sua capacidade de lidar com atos mágicos vêm a prosperidade de sua casa e a de seus filhos-de-santo.
Nos terreiros de candomblé, as relações estão baseadas em uma hierarquia por ordem de senioridade, tal como a maioria das configurações familiares, divididas em múltiplas atribuições, todas controladas pelo pai-de-santo, líder espiritual e material da família de santo. Ao mesmo tempo, os terreiros são circuitos através dos quais transitam indistintamente bens materiais e simbólicos. Esses circuitos revelam a linha tênue que divide as relações fundadas na idéia de dom ou graça das relações interessadas que visam ao lucro; também, que dons e mercadorias circulam em um vasto campo cujos sentidos são acionados pelos atores, de forma diferenciada, nas interações em que estão envolvidos.
Há uma visão corrente que aponta o domínio da religião como um espaço purificado de relações interessadas, um espaço exclusivamente voltado para a circulação de dons entre as pessoas e entre estas e o sagrado ou transcendente. Nesse registro, que é mais normativo do que descritivo, a presença do interesse não pode ser senão uma fonte de acusações. A presença do dinheiro no campo da fé comprometeria a pureza da religião.
Ao longo deste trabalho será possível vislumbrar que a experiência real dos agentes mobiliza discursos acusatórios, segundo interesses particulares, em interações determinadas. Em outras palavras, é possível para os agentes naturalizarem a presença do dinheiro em suas práticas religiosas, desde que sejam cumpridas certas regras de conduta ou de etiqueta.
Proponho com isto a existência de uma etiqueta específica que permita que o dinheiro esteja presente no domínio da religião sem causar problemas. Mas esta etiqueta não é rígida, e será a própria dinâmica das relações que, no final das contas, determinará que certos atos sejam interpretados pelos agentes como corretos ou incorretos, transformando aquilo que, em condições específicas, pertence à ordem do correto e do normal em algo que seja motivo de acusação.
O artigo está dividido em três seções que analisam aspectos distintos de relações em que o dinheiro se encontra presente no candomblé. Na primeira seção, investiga-se a relação de clientela religiosa, o percurso da iniciação e como as transferências de dinheiro entre cliente e pai-de-santo mudam de status no processo de passagem de "cliente" para "filho-de-santo". Um filho não pode ser tratado como um cliente, e a diferença essencial entre clientes e filhos-de-santo seria o acesso privilegiado ao círculo de intimidade do terreiro. Do ponto de vista das práticas, no entanto, é demasiado complexa a definição desses limites, o que só é possível de ser percebido em situações de acusação.
Na segunda seção, discuto as formas de participação adotadas pelos filhos na manutenção e na reprodução de uma casa de santo. A participação na vida econômica de um terreiro assume a forma da ajuda. Descrevo como o papel do filho-de-santo é prover às divindades (e à comunidade) com o melhor de si, baseado na ética do sacrifício, na qual o volume das oferendas dá a dimensão exata da graça obtida junto aos orixás. A ajuda acaba se tornando uma espécie de eufemismo, através do qual os filhos-de-santo lidam com as transferências de dinheiro para a casa de santo.
Na terceira seção do artigo, coloco o leitor diante dos rituais que envolvem dinheiro em espécie. Se, nos quadros anteriores, tratamos de situações em que ele aparecia de forma explícita, mas sem ser manipulado – na relação entre clientes e pais-de-santo – e estava presente, mas sem ser mencionado – nas relações entre pai e filhos-de-santo – nesta seção, o dinheiro passa a ser manipulado ostensivamente pelos agentes nos grandes rituais. O dinheiro integra o sistema de objetos ligados à ritualística do candomblé, não apenas como moeda antiga, fora de circulação (Vogel et alli 1987), mas como meio circulante, mercadoria que acessa um circuito pelo qual transitam dádivas. O dinheiro, que até então aparecia de forma velada, assume aqui a sua onipresença no domínio da religião.

Um dia, numa de suas viagens, Thomas tentou imaginar seu mundo real. Nunca tinha feito isto. Sabia que seria uma árdua tarefa, apesar de sua complexa imaginação. Para Thomas era natural diferenciar, sem maiores dificuldades, seu mundo real de seus mundos imaginários. Como então juntar os dois? Ele acharia ridículo se porventura, no meio de seu vôo criativo, lhe passasse pela cabeça a possibilidade de confundir seus mundos imaginários com seu mundo real. Como então iria imaginar seu mundo real sem ao menos cogitar a possibilidade de torná-lo imaginário?
É fácil perceber que Thomas é um cara complicado, do tipo que se não tomar cuidado acaba se perdendo num labirinto de pensamentos confusos e desconexos. Na verdade, tantos eram os nexos criados por Thomas que seria preciso milhares de anos para decifrá-los. Anos de vida não faltavam a este senhor que provavelmente viverá por muito tempo. Bom, é melhor abandonar por hora os pensamentos e falar um pouco da vida desse sujeito até agora misterioso.
Ano que vem, no dia cinco de Abril, Thomas completará quatrocentos e vinte anos. É um senhor respeitado no seu meio, embora um pouco desgastado. Fala-se muito dele, muitos o criticam e muitos o chamam para esclarecer certas coisas complexas. Pode-se pensar: Como assim esclarecer? Esta palavra não serve pra caracterizar Thomas! Mas Por incrível que pareça, as pessoas o invocam pra simplificar muita coisa sem fácil explicação.
Thomas é um burocrata militar daqueles clássicos (na falta de melhor capacidade de descrição, tomo a liberdade para usar o rótulo “clássico”, afinal as descrições sem os rótulos se tornariam tratados, só é preciso saber usá-los). Bom, Thomas trabalha no Comando Militar do Leste. Recebeu esta graça por causa da procedência inglesa de sua família materna, formada em sua maioria por fiéis católicos e Thomas seguia esta tradição religiosa com muito afinco. Lá na repartição o chamam de Tomás, na verdade é assim que o chamam desde que nasceu, mesmo com sua mãe sempre corrigindo as pessoas. Este velho e desgastado funcionário público passava a maior parte do seu tempo pensando em se aposentar e levar a metade do resto de sua vida jogando damas na praça e a outra metade ajudando seu sobrinho a tocar um boteco em Honório Gurgel, onde moravam. Enquanto esse dia não chegava tinha que se contentar em levantar todos os dias às seis da manhã e andar sempre na linha. Seguia no parador que vinha de Belford Roxo até a Central e caminhava alguns metros pra chegar na repartição às oito. Antes, porém, tomava uma média na padaria ao lado, onde já começava sua peregrinação intelectual rotineira.
Volta e meia observava, entre um gole e outro do café com leite, um policial recolhendo a mercadoria de algum camelô do comércio logo em frente e comentava maliciosamente com o Seu Manel da padaria: “Que filha da puta, né Seu Manel? Tem mais é que se fuder mesmo!” E o seu Manel complementava: “Esse aí já vai tarde Seu Tomás. Roubam a mercadoria dos outros e os clientes da gente, que é sério”. O Seu Manel achava que a gente séria, como ele, era moralmente superior e isso lhe dava o direito de querer que os camelôs, desordeiros natos, fossem banidos pela polícia. Sempre era a mesma coisa, afinal Thomas sabia explorar situações ordinárias da vida pra extrair das pessoas um lado conservador e ordeiro e o Seu Manel, um velho português de bigode, era seu alvo predileto. Mas, apesar da malícia, Thomas era um cara extremamente fiel aos seus princípios. A ironia não lhe servia para questionar seus valores, mas para reforçá-los. E Thomas sabia que era preciso ser irônico para ser confiável, pois todos desconfiam de um cara muito sério.
Nessas ocasiões, de polícia baixando o
Quando chegava na repartição, Thomas sempre conferia se a cartilha do bom funcionário militar estava presa direitinho na parede ao lado do elevador, afinal ele havia feito esta cartilha com muito esmero. Pensou em tudo cuidadosamente de modo que pudesse falar sobre todas as coisas que achava importantes em apenas dez mandamentos. Gabava-se dizendo que se Moisés fez por que ele não poderia fazer? Thomas tinha tanto orgulho desta cartilha que achava que ela devia existir em todas as repartições militares do mundo. Logo se vê que Thomas também é exageradamente confiante. Não era. Como eu disse foi um menino tímido e cheio de medos e indecisões, mas desde que começou a trabalhar para o General Carlos tornou-se cada vez mais confiante e foi também quando começou a tornar-se paranóico. Tinha tanto medo do General Carlos que se sentia vigiado por ele até quando ia ao banheiro. Pra dar conta desta paranóia aprendeu a organizá-la, passando a levar a vida de forma sistemática. Tudo tinha que se encaixar e foi aí que sua religiosidade lhe serviu de base. Na religião católica tinha os princípios, já arraigados em sua consciência, que lhe podiam dizer por onde começar sempre que um turbilhão de coisas desconexas decantava no seu mundo particular.
A confiança veio com o trabalho, ou melhor, com o respeito com que era tratado no trabalho. Pela disciplina e eficiência com que realiza suas obrigações, Thomas tornou-se um funcionário muito estimado por todos e inclusive pelo General Carlos. Jamais deixa a peteca cair e volta e meia ajuda os novatos, ainda perdidos em suas funções, a descascar alguns abacaxis que caem em suas mãos.
A objetividade racional de Thomas se confundia com um ideal missionário. Sua missão era disciplinar as pessoas a sua volta e nos dias em que não conseguia cumprir essa cruzada se sentia arrasado e em débito com o mundo orgânico arraigado aos seus princípios ortodoxos. Thomas sabia exatamente como cada um o condenaria se falhasse em sua missão e até o seu Manel da padaria entrava nessa parada, apesar de o seu Manel não fazer idéia de qual era a missão do Thomas. Será mesmo que não fazia?
Com esta dúvida no ar, Thomas bebeu mais um gole de cerveja e ficou contemplando a paisagem com a certeza de que tinha começado a imaginar seu mundo real.